A SUFRAMA, administradora do projeto ZFM, completou 50 anos. De repente, como servidor, aos 62 anos de idade a ficha cai e eu dou conta de que estou nessa casa há mais de 30 anos, ou seja, mais da metade de minha própria existência.
Formado em Engenharia Operacional, cheguei na Suframa na
gestão do Coronel Igrejas Lopes e, logo em seguida, veio o Dr. Roberto Cohen. Não
passava pela minha cabeça, por exemplo, a ideia de que, 30 anos depois, eu iria
ter como colega de trabalho, aprovado no concurso de 2008 da Suframa, o meu
próprio filho, Luiz Frederico de Aguiar.
A Suframa é uma parte da minha vida e muitos capítulos da
minha história pessoal. É a continuação da minha casa e, como costumo
dizer aos antigos e novos colegas de trabalho, é a nossa eterna Escola, pois aqui aprendemos alguma coisa todos
os dias.
Nesses 50 anos de existência do projeto ZFM e da Suframa, muitas
coisas aconteceram e marcaram a Instituição. Eu, pessoalmente, entendo que a
década de 90 é a mais marcante, pois mostrou a força do projeto ZFM e a
grandeza dos servidores e colaboradores que dão vida à Suframa e à
administração desse que é considerado o mais importante e único projeto de desenvolvimento
regional que deu certo na Amazônia.
Critica-se muito o projeto ZFM, mas, sinceramente, o que
seria do Estado do Amazonas sem a ZFM? O que seria desse Estado, sem tradição
agrícola ou agropecuária, onde a extração madeireira era uma das atividades
preponderantes e onde a madeira de várzea explorada pela indústria em várias
regiões vinha sendo devastada sem nenhum controle das autoridades? Sinceramente,
dá para acreditar que as leis ambientais criadas ao longo desses 50 anos
impediriam o Amazonas de estar devastado como estão outros estados da região?
O projeto ZFM obviamente que não foi criado para proteger as
nossas florestas. Porém, hoje, todos comemoram o fato do Amazonas dispor de
mais de 90% da sua cobertura florestal preservada. O Brasil e o Mundo devem esse resultado ao
projeto ZFM.
Falando da década de 90, os primeiros anos foram muito
preocupantes. O projeto ZFM, criado dentro de um modelo econômico de
substituição de importações, de repente se vê diante de um processo de abertura
da economia pelo Governo Collor. Era tudo o que os inimigos da ZFM queriam e
passaram a comemorar. Naquele momento muitas pessoas, inclusive internamente na
Suframa, acreditavam e apostavam que seria o fim do projeto ZFM. Tudo parecia
contribuir para isso. O comércio importador deixava de ser atrativo para os
turistas domésticos consumidores e a indústria do Polo Industrial de Manaus, na
opinião dos especialistas, não iria conseguir competir com os produtos
estrangeiros importados que, além de mais modernos, chegavam mais baratos nas
prateleiras do comércio.
Esse foi no meu entendimento o momento mais difícil e ao
mesmo tempo de maior aprendizado. A Suframa até então era uma mera
administradora de incentivos fiscais e, de repente, com a abertura da economia
nacional, ficou à deriva, sem uma convicção do que efetivamente fazer, tampouco
qual rumo tomar. Diante de uma nova realidade econômica, surgia internamente a necessidade
de se repensar a Suframa, definir a sua missão e os seus objetivos como
Instituição. Assim, em 1994, assistimos nascer o primeiro Planejamento
Estratégico da SUFRAMA, na administração do Superintendente Manuel Silva
Rodrigues.
Com a abertura da economia, presenciamos o polo industrial
de Manaus iniciar um processo de modernização e automação de suas linhas de
produção. Era instituída a política do PPB.
Saíamos de uma política industrial intensiva de mão-de-obra, para uma
política intensiva de tecnologia. Ao mesmo tempo que algumas empresas começavam
a bater recordes em seus faturamentos, constatava-se uma redução drástica na
mão-de-obra total do Polo Industrial de Manaus. Era o homem sendo substituído
pela máquina. O mais dramático era assistir que a nova indústria que nascia no
polo industrial exigia uma mão-de-obra mais especializada/qualificada e Manaus
não estava preparada para atender essa demanda, exigindo que as indústrias
fossem recrutar parte dessa mão-de-obra em outros centros.
Quando as coisas pareciam começar a melhorar veio o incêndio
da sede da Suframa, em maio de 1994. Esse episódio marcou muito a todos aqueles
que se dedicam com afinco a essa Instituição. Nessa ocasião eu estava residindo
em Rio Branco, no Estado do Acre, participando de um acordo de cooperação
técnica com a Prefeitura de Rio Branco, contribuindo com a implementação da sua
secretaria de planejamento municipal. Morava numa casa alugada com dois amigos
arquitetos. Logo cedo fui acordado por um deles dizendo-me que o jornal da
manhã da TV estava anunciando que a sede da Suframa havia sido destruída pelo
fogo. Levantei assustado com a notícia e fui conferir na TV o que de fato havia
acontecido. Ao ver as imagens da destruição da sede e alguns colegas desolados,
inertes diante daquela cena terrível, confesso que não deu para conter o choro
e a imensa tristeza. Era como se eu tivesse perdido para o fogo a minha própria
casa e esse certamente foi o sentimento de todos os outros colegas naquele
momento.
Desse episódio, lembro até hoje de um comentário que eu ouvi
em Rio Branco de uma pessoa que dizia que a ZFM só existia para o Amazonas e só
servia a Manaus. Disse ele – “se ainda faltava alguma coisa para o fim da ZFM,
esse incêndio veio para transformar tudo em cinzas”. Outras pessoas pensavam da mesma forma, tinham
seus motivos, mas vamos deixar para comentar mais adiante.
Apesar da tragédia e da tristeza que tomou conta do sentimento
de servidores e colaboradores naquele maio de 94, a Suframa não podia parar, os
clientes da indústria e comércio da ZFM não podiam ficar sem atendimento aos
seus serviços. A resposta veio rápida, numa demonstração de amor, de garra,
determinação e espírito público dos seus dirigentes, servidores e
colaboradores. Internamente, vivenciou-se uma mobilização de guerra para que os
serviços de atendimento ao comércio e à indústria do polo industrial não fossem
totalmente prejudicados. Depósitos, corredores e até banheiros do prédio anexo
da Suframa foram transformados em gabinetes e salas de trabalho. Uma situação
que perdurou por alguns anos até a reinauguração da sede principal da Suframa, em
1999. Fala-se muito até hoje da causa e da origem do sinistro, mas quase nada
se diz do trabalho, do tempo, do esforço e do sacrifício desprendido por
servidores e colaboradores para resgatar a Instituição das cinzas.
Desse período é importante deixar registrado o nosso reconhecimento
a uma turma de colaboradores da Fucapi que já não estão mais na Suframa. Em
2014, mais de duas centenas de colaboradores, muitos deles com mais de 20 a 25 anos
de trabalho dedicado à Suframa, deixaram a Autarquia por força do encerramento
do contrato com a Instituição ao qual estavam vinculados, no caso a Fucapi.
Foram colaboradores que dedicaram uma vida de trabalho à Suframa, que tiveram
uma participação nobre em várias etapas da vida da Instituição, que exerceram
suas atividades como leais e abnegados servidores fossem, e que sempre honraram
e dignificaram o nome da Autarquia.
Na segunda metade da década de 90 tivemos também um fato importante
que ajudou muito a mudar a imagem da SUFRAMA perante os Estados vizinhos da
Amazônia Ocidental. Havia um entendimento generalizado naquela ocasião de que o
projeto ZFM era bom exclusivamente para o Amazonas, em particular para Manaus. A
aplicação dos recursos arrecadados pela Suframa concentrava-se no Estado do
Amazonas, em detrimento aos demais Estados da Amazônia Ocidental, cujos governadores
e prefeitos de capital integram o Conselho de Administração da SUFRAMA na
condição de conselheiros. Essa situação causava desconforto político e um
distanciamento entre a Suframa e os Governos Estaduais da Amazônia Ocidental,
principalmente nas ocasiões em que o apoio político desses Estados era decisivo
para a defesa dos interesses do Polo Industrial de Manaus no Congresso Nacional.
Era comum se ouvir que a Suframa só se aproximava dos demais Estados da sua
área de atuação quando estava em jogo os interesses da indústria da ZFM, cujos
benefícios diretos e indiretos se concentravam no Estado do Amazonas.
Com relação a essa questão, certa vez ouvi o desabafo de um
Conselheiro que dizia não aguentar mais viver de pires na mão pedindo recursos
à Suframa e ouvir em troca conversa fiada e falsas promessas. Nas reuniões do
CAS, dizia o Conselheiro - eu abandono os afazeres do meu Estado, pago a
passagem, pago a hospedagem se tiver que pernoitar em Manaus, vou para a
reunião do CAS ouvir discursos, bater palma para os projetos industriais que se
instalam no Distrito Industrial de Manaus e para dezenas de convênios milionários
normalmente beneficiando os municípios do Amazonas, e retorno sem trazer nada
do que foi prometido ser atendido por meio de convênio ao meu Estado.
Essa na verdade era uma queixa generalizada. Por conta disso
surgiu o entendimento de que o projeto ZFM era bom só para o Amazonas, em
particular para Manaus. Dentro da própria Suframa havia um grupo que defendia a
ideia de que os recursos arrecadados pela Autarquia vinham das indústrias
instaladas no Distrito Industrial, assim, entendiam como justo que esses
recursos deviam ser destinados prioritariamente a projetos de desenvolvimento
no Estado do Amazonas, em detrimento dos outros estados que integram o projeto
ZFM.
Ciente desse tratamento injusto com os demais Estados, em
1996, na administração de Mauro Costa, foram estabelecidos pelo CAS critérios
mais igualitários de repartição dos recursos da Suframa, tornando mais justa a
distribuição dos investimentos em projetos via convênios na sua área de
atuação, priorizando os projetos voltados à pesquisa,
ensino e extensão, estudos, promoção das exportações e infraestrutura, com
vistas a interiorização do desenvolvimento. A partir dessa decisão,
durante as reuniões itinerantes que aconteciam nos Estados parceiros, era
gratificante assistirmos as autoridades locais apresentarem as melhorias que
eram realizadas em seus respectivos Estados a partir de projetos financiados
com recursos da Suframa via convênios. Lamentavelmente essa política de
distribuição dos recursos da Suframa há muitos anos é prejudicada pela política
de contingenciamento de recursos do governo federal.
Foi também na década de 90 a criação
do Centro de Biotecnologia da Amazônia – CBA, em parceria com o Ministério do
Meio Ambiente, Recursos Hídricos e da Amazônia Legal e Ministério da Ciência e
Tecnologia. Mas, esse é um tema interessante, polêmico e que merece um
comentário inteiro à parte e em outra oportunidade.
Várias outras coisas aconteceram
nessa década de 90, mas vou parar por aqui e
continuar em outro momento.